O Guardião do Conhecimento
Um presente inesperado. O momento não poderia ser mais oportuno, e ao mesmo tempo, pior. O relicário fora encontrado e agora a Sombra estava diante de algo que não previra. Resignara-se contudo. Pois aceitou a idéia de que, em determinado ponto, seus planos estariam aquém de seus próprios poderes. O importante é que estivessem em andamento. Não poderiam parar.
Mesmo assim, o relicário era importante demais para ser ignorado. Iria acompanhar de perto os acontecimentos dali em diante, e intervir quando fosse necessário, talvez até mesmo pessoalmente. As possibilidades eram muitas, chegavam a ser incalculáveis. Por tanto tempo buscara o paradeiro daquilo que resguardava sua alma, o relicário que guardava sua vida, e nunca obtivera sucesso.
E agora, seja por ironia ou sarcasmo, o destino lhe mostrara a verdade. Tão perto e tão longe. A Sombra amaldiçoou a todos os infortúnios, e então pôs-se a planejar. Traçando mentalmente os novos passos a serem dados, deparou-se com velhos conhecidos, e sorriu, tal qual um lobo diante de cordeiros.
Nada mal. Nada mal mesmo.
Arco II
Nun Torak
A manhã chegou com o som do gotejar d’água formada pela neve que degela nos telhados da Taverna do Poço. Nos quartos da estalagem a maioria dos hospedes ainda dormia. Após a sofrida batalha do dia anterior, tiveram uma merecida noite de descanso. Ainda não conheciam muito bem os objetivos comuns que possuíam, nem mesmo eles próprios, mas haviam se encontrado na hora certa e no lugar certo, e conseguiram unidos, fazer valer a justiça.
Perdas houveram, mas seriam vingadas. A morte havia presenteado Demóstenes com mais algumas horas para que a justiça alcança-se seu algoz. E Hector não pretendia desonrar a promessa que fez ao velho sacerdote. Iria recuperar a Manopla. Fora o primeiro a despertar naquele dia. Mesmo não estando acostumado à repentina troca de horários, e mal dormindo durante toda a noite, não pretendia presentear Caolho com sequer um segundo de vantagem.
Desceu as escadas e encontrou Phillip atarefado com o preparo do desjejum. Haviam pães, ovos e um bom pedaço de queijo, além de um chá escuro feito de grãos trazidos de Lyon. Faminto, o guerreiro deu por si. Não comia nada além de pão de viagem desde que partira um dia antes de Narun, e o estômago reclamava a atenção merecida.
- Sente-se pequeno. – sorriu o velho taverneiro – Conheço uma cara de fome quando vejo uma. Não faça cerimônia, há mais comida para os outros garotos quando despertarem.
Hector retribuiu o sorriso e comeu com voracidade. O pão umedecido no chá foi o primeiro a desaparecer, coberto por grossos nacos de manteiga. Preparava-se para repetir o feito com uma segunda broa quando três batidas ritmadas ressoaram de encontro a porta. Instintivamente, o guerreiro levou as mãos a espada.
- Quem será a essa hora?
- Deve ser alguém daquele bando amaldiçoado – praguejou Phillip – Malditos ladrões! Novas batidas ressoaram, três delas. Agora Taylor já estava ao lado do batente, e Solrak descia veloz as escadas ao seu encontro. As armas em punho. Phillip, distante o suficiente para procurar abrigo, enfim gritou.
- Quem é?
- Procuro Hector Taylor, Guerreiro da Nação. – respondeu a voz através da porta.
- Quer falar comigo?
- Não só com você, Hector Taylor. Também procuro Solrak Diatore, Gabriel Ganantos e outros dois homens cujos nomes desconheço, por enquanto.
Solrak e o guerreiro entreolharam-se, e assentindo com um gesto, abriram a porta lentamente. Diante dela, um estranho completamente coberto por pesados mantos esverdeados em um tom sujo de musgo aguardava. Não podiam ver seu rosto, oculto sob um elmo, mas sentiram o frio gélido que dele emanava.
- Acordem os outros – falou. E a sua voz era metálica, como se o próprio elmo falasse por ele. Sem perda de tempo, o estranho avançou com movimentos ritmados, como se estivesse marchando até o centro do salão. Removeu então o capuz de sua manta, e ambos puderam ver seu rosto. Era completamente feito de ferro, com buracos onde deveriam estar os olhos e a boca. Não movia os lábios enquanto falava, restringindo-se a um leve movimento de abrir e fechar quando iniciava e findava suas frases.
- Quem é você? – perguntou Solrak – Como sabe nossos nomes?
- Acordem os outros – repetiu o estranho.
- Escuta aqui, eu não sou seu…
- Faça o que ele diz Solrak – ordenou Phillip. O velho taverneiro reconhecia o visitante, e já ouvira histórias daquele que ele representava. Apenas aquela voz de ferro já era o suficiente para fazer com que ele suasse frio. E não pode deixar de amaldiçoar sua falta de sorte. Caolho, e agora um Guardião. Duas visitas deste porte em menos de dois dias estavam muito longe de qualquer probabilidade.
Poucos minutos transcorreram até que Solrak regressou, trazendo Gabriel e Adso consigo. Matheus acordara antes, ao ouvir as batidas da porta e já estava descendo as escadas quando o amigo subiu. Agora, com os cinco reunidos ali, além de Phillip, a tensão deu lugar a um estranho sentimento de segurança. Haviam lutado e vencido antes, e seus inconscientes estavam certos de que juntos seriam capazes de enfrentar qualquer coisa.
- Ainda falta um de vocês – falou o Guardião.
- Refere-se a Demóstenes? – perguntou Hector.
- Desconheço os nomes, mas sei que foram sete os homens que desmantelaram o bando de Roger Caolho.
- Seis, na verdade – era Phillip constrangido – Não fui de muita utilidade, confesso.
- Perdemos um de nossos amigos nas mãos de Caolho – respondeu Solrak.
- Uma única baixa. São guerreiros valorosos.
- Se nos reconhece como tal, então antes de prosseguirmos algumas apresentações se fazem necessárias – falou Matheus desconfiado.
- Sou o Guardião do Conhecimento 1625 respondeu o estranho com a mesma voz fria.
- Um Guardião? – surpreendeu-se Gabriel.
- Você o conhece?
- Não este aqui – falou o ladino rondando em torno de 1625 – Mas já ouvi histórias sobre eles. Não são seres vivos, na verdade. São um tipo de golem. Um construto mágico que viaja o mundo recolhendo conhecimento.
- Exatamente – respondeu 1625 – Uma de minhas prioridades é recolher e compilar informações em nome de Aschelot, o Guardião do Conhecimento Primordial. Entretanto, minhas diretrizes agora são outras.
- E quais seriam?
- Guardião 1625 procura pelo grupo que derrubou o bando de Roger Caolho.
- Como ele soube disso? – perguntou Adso surpreso – A luta foi a poucas horas!
- Uma de minhas diretrizes é a captura de criminosos e bandidos conhecidos pela lei. Encontrei três deles em debandada a algumas horas.
- Ou seja – murmurou Matheus- São os membros do grupo de Caolho que afugentamos daqui ontem à noite. O que fez com eles?
- O procedimento padrão é a captura, mas optei por eliminá-los para seguir minhas diretrizes originais
- Que seriam…
- Recuperar a Manopla de Aukar. – respondeu o Guardião, para a surpresa dos presentes.
- Você está atrás da manopla também? – exclamou Gabriel – E o que é aquilo que tem tanta importância?
- E quem por Mabie é Aschelot? E isso de guardar conhecimento?
- Antes de responder as suas questões, devo seguir minha diretriz primária que é a de acumular informações.- falou o construto observando Adso – A menção de nome ou antonomásia de suposta divindade desconhecida é algo que não posso ignorar. Descreva sua deusa, Mabie.
- Ela é a mãe das fadas, senhora dos iluminados, madrinha dos magos. Mabie simplesmente é a responsável pela magia em nosso mundo – explicou Adso com um sorriso, surpreso pelo súbito interesse em seu alvo de devoção e respeito – Ela nos deu o direito de usá-la e nos dá o poder preciso para conseguirmos ufruir e difundir essa belo e benéfico tipo de poder.
- Além de queimar boa parte do mundo quando não tem mais o que fazer – reclamou Phillip apoiado na vassoura. Para o povo, magos e seus truques costumam ser muito mais temidos do que admirados, um resquício de ódio que perdura desde o fim da Guerra da Magia, que quase levou o mundo ao seu fim. Adso ofendeu-se, mas para evitar confusão, não respondeu aos insultos do taverneiro.
- Então Mabie é apenas outro nome para Mab. – concluiu o Guardião.
- Responda o que perguntamos. – exigiu Hector.
- Farei isto, Hector Taylor. Aschelot é um sábio, e o maior estudioso da história e dos povos de toda Meliny. Graças a seus Guardiões, possui uma das maiores bibliotecas de todo o mundo, e seu conhecimento só não supera o dos próprios deuses. Quanto a Manopla de Aukar, ela é parte do conjunto místico conhecido como a Armadura de Aukar, que confere grandes poderes a seu possuidor.
- Demóstenes disse que a Manopla era uma chave para o templo de sua ordem.
- Ele seguia a que religião? – perguntou o construto interessado em aprender.
- Disse que era sacerdote de… Nivee – respondeu Hector – Mas não chegou a se tornar clérigo, cuidando apenas de assuntos menores.
- Se seu falecido amigo lhes pregou uma peça, ou se o que ele conhecia sobre o que levava era apenas isto, nunca saberemos. Mas o templo cuja chave é a Manopla de Aukar não foi erguido em nome da paz. É um templo da morte.
- E como foi que nos encontrou?
- Torturei o grupo de Caolho em troca da informação antes de matá-los. – respondeu o Guardião com uma incrível serenidade apesar do sotaque metálico – Antes disso, entretanto ouvi apenas rumores sobre a transferência da manopla de seu templo original para Cronn. Foram os bandidos que falaram sobre vocês, e também sobre o embate. Creio que, como foram vencedores, devem estar com a manopla.
- Caolho fugiu levando a manopla consigo. – respondeu Taylor – Estávamos de partida em seu encalço quando você nos interrompeu.
- Peço perdão – respondeu o construto – E ofereço meus préstimos durante a caçada. Irei acompanhá-los na busca por Roger Caolho.
- Então vamos partir.
- Só depois do café! – interrompeu Gabriel com um olhar reprovador – Não concordam?

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