Unindo Jogadores Diferentes
Para quem não conhece, um resumão da história do jogo. Lá pelos idos da década de 70, os sujeitos que iriam desenvolver as bases para os jogos que hoje chamamos de RPGs passavam as tardes ociosas de adolescentes desocupados jogando wargames, aqueles jogos super doidos onde você manipula exércitos em batalhas através de dioramas (que nada mais são do que maquetes de um terreno qualquer). Em determinado momento, durante a invasão de um castelo no mapa, um dos jogadores presentes resolveu deixar o exército de lado e seguir adiante com apenas um dos soldadinhos.
O juiz da partida nesse momento poderia ter revirado seus livros atrás de alguma regra pronta, não encontrado nada e simplesmente proibido o amigo de fazer a tal manobra. Mas, ao invés disso, ele sentenciou: “Vou desenvolver a parte interna do castelo, continuamos o jogo dali na próxima semana”. Anos depois nascia o primeiro RPG da história, o velho Dungeons and Dragons. Algum purista pode revirar os olhos quanto a esse resumo por sua imprecisão, mas por favor esse não é o foco do texto, então peguem leve ok? ;D
Desde aqueles tempos onde as coisas eram mais simples (e os monstros mais bizarros) muita coisa mudou. Hoje já não é mais tão fácil para um narrador colocar num mesmo corredor um Tigre Dentes de Sabre, seis goblins, um beholder, e duas dúzias de zumbis. Porque apesar de muita gente não estar nem ai pra quem alimentava o Tigre, ou porque os zumbis não mataram os goblins – para uma parcela de jogadores isso faz toda a diferença do mundo. E para complicar ainda mais, é possível que você tenha ambos os tipos de players agora mesmo esperando você, ali na sua mesa.
Profissional X Amador X Leigo
Na minha humilde opinião existem três tipos de jogadores. Os primeiros são os Profissionais, aqueles que conhecem vários sistemas diferentes, dominam dois ou três deles com grande desenvoltura, colecionam suplementos diversos sobre o jogo e efetivamente jogam com grande regularidade. Criam cenários próprios e as vezes até mesmo sistemas inteiros para jogar. Apesar de serem mais raros, são muito mais fáceis de encontrar em listas de discussão e fóruns. Especialmente devido a grande carga de conhecimento que possuem, são críticos ferrenhos e as vezes até chatos em defender esse ou aquele ponto de vista. Existem, claro, Profissionais especializados em um único sistema, mas são mais raros. Nesse negócio de RPG, para se profissionalizar mesmo você acaba tendo que entender um pouco de tudo.
O segundo tipo, mais numeroso e calado, são os jogadores Amadores. A galera que só tem um livro em casa, ou no máximo alguns suplementos para o mesmo jogo e que jogam muito raramente, quando conseguem um grupo disposto de amigos para uma partida, no máximo duas. Jogar uma campanha inteira é muito raro, dificilmente passando de três ou quatro aventuras com os mesmos personagens. Por terem estilos diferentes, raramente um Amador joga com Profissionais. O primeiro por não estar disposto a assumir um compromisso muito sério com um jogo, e o segundo por acreditar que um iniciante não vai proporcionar uma experiência de jogo satisfatória para seu grupo, ou não irá acompanhar o ritmo do resto da mesa.
Ambos os casos são tristes realidades, e também se aplicam a uma terceira classe de pessoas ainda não citadas por não serem efetivamente jogadores, apesar de terem potencial para isso – são os Leigos: aqueles que nunca tiveram contato algum com o RPG. Uma das razões para o jogo amargar a desconfiança e preconceito por parte de quem nunca jogou é a falsa impressão de que é muito difícil, caro ou complicado jogar. Para piorar a situação, há uma vertente de jogadores que fazem questão de transformar a mítica por trás do jogo ainda mais obscura e sinistra, esquecendo-se de que tudo não passa de um hobby. Um passatempo divertido para entreter alguns amigos por algumas horas.
Pensando nisso e evitando tornar esse texto ainda mais bizarro, trago algumas idéias simplórias que podem facilitar a união entre estas três vertentes para aquele RPGzinho Arte, o joguinho sem compromisso do fim de semana mesmo que você possua um time nas finais da Primeira Divisão. A comparação com futebol foi só uma piada. Mas quem sabe seja de alguma utilidade, não é?
Campeonato de Bairro
(Amadores na mesa)
Nestas horas o melhor mesmo é tentar ao máximo evitar complicações de regras. Deixe o jogo fluir da melhor forma possível. Você ainda não é tudo aquilo como mestre e seus jogadores estão bastante perdidos quanto ao que eles podem ou não fazer. Deixe a coisa rolar. Se uma jogada foi boa, estão todos se divertindo com aquilo, não impeça. Seria, a grosso modo, como marcar um impedimento após um belo gol. Você vai matar um pouco da diversão com isso.
Use poucas regras, sempre com cautela. Não pense que você os está acostumando mal, mantenha em mente o fato de que ninguém ali é realmente um grande jogador, tampouco podem passar muito tempo das suas horas livres jogando. Pra um jogo onde os amadores são maioria, é particularmente legal você levar alguns personagens arquétipos prontos de casa. Crie um guerreiro forte, um ladino ágil, um mago que conhece poucas mas boas magias e um clérigo para curar a equipe. Um time básico que não fará feio nesta partida. Mas deixe que eles inventem os detalhes, escolhendo os nomes ou pequenos históricos. Este mínimo de customização é legal e muito importante para marcar o jogo nas memórias dos participantes. Deixa um gosto de quero mais =)
Campeonato Municipal
(Ou Amadores e Profissionais na mesma mesa)
Ao invés de empurrar aquele NPC secundário para ele, por que não aproveitar exatamente o fato do jogador não ser fixo da aventura e colocá-lo em uma situação que ainda que não vá fazer diferença no todo da história, transforme o personagem em alguém realmente importante para a região do jogo? Em uma aventura aleatória em um mundo desconhecido, joguei com um clérigo da deusa da água. Após dar suporte ao restante da equipe e finda a minha participação na partida, o narrador contou de que forma meu personagem ergueu um pequeno templo na cidade onde ficamos, tornando-se o clérigo local. Essa mera preocupação com o personagem transformou um PJ aleatório em uma peça do mundo de jogo. E me faz lembrar até hoje daquela aventura.
Pelada de Várzea
(Amadores e Profissionais jogando com Leigos)
Como uma ou mais pessoas da mesa não são exatamente grandes mestres nesse negócio de RPG, quanto mais prática e intuitiva for a partida melhor. Ignore os detalhes irrelevantes para o momento. Neste mundo o Deus da Guerra é casado com a Deusa do Ócio e fundaram juntos um reino onde as pessoas brigam de tédio? Oks, isso pode parecer legal, mas se não diz respeito á aventura, apenas ignore. Leigos não estão interessados na profundidade do cenário. Eles querem entender como se joga e cortar alguma coisa verde.
O que vale para os Amadores também vale para os Leigos. Tenha algumas fichas prontas consigo, de preferencia em um sistema mais simples. Não use regras complexas nesta partida. Só vão gerar confusão e provavelmente você terá que repetir várias vezes a mesma coisa tornando tudo muito chato ao invés de divertido. Não tenha dúvidas: coloque alguns monstros fáceis de matar na frente dos personagens e proporcione um combate final bacana pra eles que o jogo tem tudo pra ser um sucesso.
Campeonato Brasileiro
(Ou Profissionais Jogando)
Apesar de parecer curioso, quanto mais pessoas entendidas do jogo na mesma mesa você tiver, mais risco você corre da campanha ir por água abaixo. Por conhecerem muito de tudo, é possível que alguns deles discordem do narrador sobre esse ou aquele julgamento na partida e acabem com o jogo antes mesmo do negócio engrenar mesmo.
Um ponto importante: profissionais gostam de criar suas próprias fichas em sua maioria. Por isso é bacana avisar com antecedência que tipo de aventura você pretende mestrar, por msn ou e-mail, para que no dia todos cheguem com as idéias mais ou menos encaminhadas. Isso irá poupar uma boa hora de jogo em que as fichas precisam ser criadas e aprovadas. Caso a campanha já esteja em andamento, como são profissionais é só esperar pelo espetáculo.
Armageddon
Popularity: 2% [?]















Putz, muito boa a analogia. Fora que tem muito experiente que se acha o Ronaldinho, o Romário, e fica com ego do segundo do tamanho da pança do primeiro.
Por isso concordo contigo: quanto mais experiente o grupo, mais trabalho pro DM. Os clichés não funcionam mais, e as expectativas são maiores. Por outro lado, é sempre bacana ver o jogo das categorias de base: sempre aparece algum talento por lá!
Um abraço!
Comparar o rpg com futebol metaforicamente pode não ter sido origianl, mas desenvolveu o texto de forma muito clara.
Eu tenho uma impressão muito forte de que li algo nesta mesma linha no Multiply, Valberto. Não lembro se foi o BURP que fez essa analogia da primeira vez que eu vi, mas enfim ;D
Eu curto mais uma Pelada na Várzea! hehehehe!
heoeho Eu também Nitro =D
Até porque nunca consigo regularidade pra uma campanha.
Excelente texto!
Bacana mesmo, mas os tipos de jogadores, como o texto os denomina, teriam ficado mais adequados entre aspas.
É frescura gramatical minha e por causa daquele bate-boca idiota de jogar direito ou errado.
Até!
Gilson
É, até poderia mesmo =)
Mas acho que não apontei pra esse lado, pelo menos não intencionalmente. Todos nessa matéria estão jogando certo, mas alguns são muito mais empenhados no jogo do que outros =)
Gostei da matéria! Realmente mostra uma aprte da realidade, e tem boas dicas.
Mas e o meu caso não está ai… não sou Amador porque tenho muitos livros e já joguei alguns sistemas(grupo com uma mentalidade só é f¬¢), e tenho empenho com o jogo…
Mas autalmente não jogo, seria eu um… órfã?