Fanservice Global
Enquanto eu não tiro um pouco a vergonha de cima dos ombros para dar continuidade as resenhas de blogs que fazia no ano passado, vou me ater a uma série igualmente sem vergonha que vem trazer um pouco de luz (ou de treva) sobre os assuntos comentados e discutidos na blogosfera rpgísticas que hoje temos. Pra começar, vou passar minhas opiniões sobre um texto escrito pelo Shido Vicious no blog dot20. Ele questiona, entre outras impressões, a necessidade de tornar as fêmeas das espécies apresentadas em jogos de fantasia medieval atraentes dentro dos padrões humanos.
Este é um assunto deveras interessante, que pode ser analisado de várias formas. Eu, na minha humilde cara de pau, irei jogar água em três pontos sobre os motivos que por ventura levam um criador de cenários optar por uma humanóide gostosona para ilustrar seus textos ao invés de alguém mais modesta ou fora dos padrões. Afinal, por que diabos este tipo de comportamento “fanservice” ser aplicado em quase sua totalidade?
Antes de mais nada, vale a pena compreendermos um fator que é relevante mecânicamente para a narração de histórias de RPG. A necessidade de um padrão humanóide para as raças jogadoras. Explico:
Eu Quero Ser Bizarro!
É fato que em mundos de fantasia, não existem limites muito lógicos para que determinado tipo de espécie exista. A maioria dos mundos são criacionistas, com divindades desenvolvendo espécies à sua semelhança ou de acordo com determinadas funções específicas dentro dos nichos sociais em cada mundo. Em geral, estes mundos são muito mais povoados do que o nosso, com cada tipo de ambiente habitado por uma raça própria. Existem raças subterrâneas, assim como também existem raças aladas e marinhas. Ou seja, há povos inteligentes em todo o lugar.
Porém, essa biodiversidade em geral existe para dar ao jogador opções na hora de criar seu personagem. Ele não precisa ficar preso ao humano, podendo adotar qualquer tipo de coisa que se locomova como base para seu background. Entretanto, apesar de existirem algumas opções de personagens realmente equisitos (como os Thri-kreen, os homens-louva-deus de Athas, o mundo de Dark Sun) a imensa maioria das raças jogáveis são de padrão humanóide para possibilitar a interação entre as espécies de um mesmo mundo.
Por exemplo, se os hobbits fossem na verdade um músculo de carne que se arrasta sobre uma trilha de muco, seria muito improvável que um dia salvassem a Terra Média. Pelo menos não o fariam em tempo hábil… Assim, jogar uma vez ou outra como uma lesma gigante ou como uma água-viva inteligente pode até ser interessante do ponto de vista filosófico. Mas para chutar orcs, você precisa ter pernas onde calçar suas botas.
Uma vez que o padrão humanóide é o mais apto à aventura, chegamos enfim ao ponto chave de nossa conversa: “Porque colocar seios nos desgraçados dos Metalianos“. Vamos a lista de três motivos:
Motivo Primeiro – Ilustração e Faixa Etária

Fanservice pra vocês =)
RPG é um jogo para adolescentes. Mas espere, isso não tem nada a ver com os motivos alardeados na matéria em questão. Falo apenas na necessidade da diferenciação entre macho e fêmea em uma ilustração. Digamos que você cria uma raça de lagartos humanóides, como o são os draconatos da 4e. Estes, por sua vez, possuem fêmeas e machos que são, para efeitos práticos, mamíferos com escamas. Se seus corpos fossem religiosamente idênticos, ou apenas diferentes devido a estatura ou cor, você teria problemas na hora de ilustrar uma cena de ação. Ficaria a dúvida, sempre, de que tipo de criatura se trata naquele momento. Mesmo os padrões de altura são complicados, em se tratando de cenas onde apenas um personagem aparece.
Você pega uma ilustração meio dúbia para ilustrar aquele NPC em mesa, corre os olhos à procura de algo para identificar o sexo do personagem. Graças as famosas restrições de material por idade, você ainda não pode desenhar um homem lagarto com a genitália balançando durante a luta. Qual é a solução então? Claro, os peitos! Seios túrgidos deixam até uma barra de aço feminina e as dificuldades desaparecem, até mesmo em raças cujas diferenças entre sexos é pequena.
Motivo Segundo -A Raça Atraente
Você imagina uma raça que seja atraente aos olhos. Os elfos são um dos exemplos mais comuns. A descrição diz que eles são belos, delgados, delicados e tudo o mais. Enfim, são élficos. Como passar a idéia de que uma raça é bonita para os padrões daquele mundo então? Aproximar-lhes do que é considerado atraente para os padrões de seus leitores é o primeiro passo.
Se você quer um anão bonitão (!), ou uma amazona capaz de arrancar suspiros de seus heróis, descreva-os com a única base de comparação atraente que você possui, que é a de um ser humano. Novamente, você pode ter uma raça de homens-lesma em sua mesa de jogo, e ela pode ser considerada atraente para o padrão do mundo. Porém, vai ser muito difícil explicar em mesa que aquele negócio lento e pegajoso é bonito (rolem seus testes de vontade, garotos)
Isso costuma ser coroado através das raças “feias” dos mundos de campanha, como os orcs, por exemplo, costumam ter exemplares igualmente terríveis de ambos os lados de suas fileiras sexuais. De qualquer maneira, o pensamento ainda é válido. Isso é terrível para você, mas agrada o orc. Aquela presa torta, aquele nariz quebrado e o cheirinho característico de suvaco não lavado é tão atraente para ele quanto uma garota arrumadinha e perfumada para a balada é para você. O bacana aqui é o motivo por detrás da história.
Motivo Terceiro – Espelho do Jogo
Vale lembrar: livros de RPG não são compêndios científicos. As ilustrações devem inspirar idéias de aventura, perigo e beleza de seu mundo, além de possibilitar seu uso como ilustração para essa ou aquela cena, ou esse e aquele personagem. A idéia não é e nunca foi trazer o humanóide médio para sua mesa, e é por isso que ao invés de uma senhora de ancas largas e barriga protuberante após o primeiro parto, a guerreira que ilustra seu Módulo Básico tem a barriga tanquinho e tatuagens sedutoras. Idem para o homem com barriga de cerveja devidamente substituido por um Conan-Musculoso-de-Tanguinha.
E só pra frisar…
Dizer que os jogadores que curtem personagens sensuais são acéfalos onanistas é pegar pesado. O exemplo da raça das esfiges, por exemplo. Salvo engano, nenhum usuário do fórum sequer imaginou qualquer tipo de atração pela raça em jogo. O uso da idéia da fêmea atraente está muito mais ligado aos movimentos felinos dela em contrapartida com a força dele (ilustrando aqui os leões em questão) do que pelo apelo erótico.
Até porque, o manual de jogo é um manual de jogo. Você não vai pra uma mesa de RPG tentando seduzir literalmente o mestre que está interpretanto uma rapariga numa taverna, ou uma elfa carente por atenção. Pelo menos eu espero que não ;D
Popularity: 13% [?]















Eu gostei muito do seu texto e também do texto do Shido. Acho muito lógico mesmo o texto do Shido e extremamente bem fundamentado para um livro ou filme, já para RPG concordo com você. Eu pelo menos não me sinto confortável jogando com algo que não seja agradável para meus olhos, não jogo de halflings ou anãs em geral. Aprecio ter personagens bonitas (conforme o conceito, claro). E como mulher não me sinto menos ou mais ofendida do uso do corpo feminino no quesito sexual, não mais ou menos que no Carnaval e outras coisas. Mas também EU em particular não me exporia dessa forma.
Acho que sou uma onanista dentro do armário. XD
Varia muito do conceito que você quer para seu personagem, e da barreira que existe entre jogo e realidade, mas nem tudo o que é sensual é obrigatoriamente fanservice =)
Eu bato sempre na mesma tecla: quanto mais o interlocutor se identificar com o personagem (a.k.a. quão mais parecido for com seus próprios paradigmas), mais bacana vai ser a experiência dele.
Além do quê, tentar ir contra a maré das gostosas de fantasia, além dos motivos que o Marlon falou, é inútil porque é arraigado demais na sociedade.
Muito bom o artigo! Nesse ponto, eu sempre pensei o seguinte: use o que mais encaixa com o tipo de narrativa/história/cenário que você pretende narrar. Eu sou um fiel seguidor do princípio que tudo deve girar em torno da narrativa que você pretende contar; se a narrativa fica melhor com fêmeas gostosas, manda bala. Sempre digo que o foco é o grupo de jogo, é criar uma experiência de RPG que seja divertida para o seu grupo.
Gostei do texto mas discordo plenamente. Porque uma espécie que possui machos na forma de leões devem ter fêmeas na forma de humanas? Faz algum sentido, à não ser pelo apelo sexual e “punhetístico”?
Os metalianos por exemplo, não poderiam ser distinguidos unicamente pelas fêmeas serem mais esbeltas? Ou, sei lá, terem uma antena diferente? Ou qualquer outro traço, são alienígenas afinal de contas!
Quando se cria uma raça, o mínimo que se espera (ou que eu espero) é uma pequena dose de coerência nela. Não é porque é fantasia que você altomaticamente tem que desligar o cérebro na hora de explicar, ou descrever, o mundo. Colocar peitos em tudo só pra fazer diferenciação visual dos sexos é simplesmente ridículo, na minha opinião.
Pra mim parece que eles só transformaram os Draconatos em mamíferos pra explicar os peitos das fêmeas. Eles colocam ovos, droga! Os únicos mamíferos que colocam ovos, que eu me lembro, são os ornitorrincos e as fêmeas NÃO possuem tetas.
Ornitorrincos amamentam, então sim, eles tem tetas =D
Entendo teu ponto de vista Aiken, mas uma antena ou um seio é basicamente a mesma coisa nesse caso. Um acessório pra diferenciar macho e fêmea, com a diferença de que um seio para nossos padrões é mais fácil de identificar.
Onitorrincos não têm tetas.O leite é “transpirado” pela mãe.
E também não são os únicos mamíferos que colocam ovos:
Existem as équidinas.
Desculpem-me, escrevi errado: o d do “équidna” é mudo.