A Sagrada Aliança
Final
Lenórien, a ultima dos altos elfos havia perecido.
Não restava sequer sua sombra para que talvez os clérigos de Thyatis, deus da ressurreição, pudessem tentar trazê-la de volta a vida. Toda a montanha desapareceu sob o ataque furioso de Riona, rainha-mãe de todos os dragões. E nada poderia ter deixado a ensandecida fera mais alegre. Muitas batalhas se seguiram sem que ela fosse capaz de eliminar sequer um de seus oponentes, salvo os escolhidos da deusa dos homens, que não resistiam a visão de toda sua glória. E agora dois já haviam perecido. O sabor da vitória nunca esteve tão forte em sua boca e sua mente já desenhava os cenários apocalípticos que pretendia recriar em Arton.
O mundo seria seu novamente.
Inconsoláveis, os três últimos combatentes estavam em choque. Até agora lutavam em confortável vantagem, seguindo o roteiro de combate já conhecido por todos. Não era a primeira vez que enfrentavam Riona, e conheciam suficientemente bem o oponente para prever seus passos e se anteciparem de seus ataques. Lenórien ter sido apanhada e ter perecido era uma coisa que não conseguiam digerir. Levaram alguns instantes para compreender que já não ouviriam seu canto, contemplariam sua beleza secular. Já não mais poderiam sentir seu perfume doce que encantava e seduzia. Nunca veriam seu sorriso ou teriam que fingir que levavam a sério suas repreensões quanto as inevitáveis discussões em que se envolviam. Ela estava morta, e sua alma sequer teria descanso.
Ser morto por Riona significava ter que enfrentar as torturas eternas no reino do deus dos monstros, sob as garras e peçonhas de seus seguidores. Estes pensamentos giravam em suas mentes, e reviravam seus estômagos. Lentamente abandonavam a razão, dando lugar ao ódio. E vencer Riona tomado pela fúria era impossível. Seu próprio ódio era superior a tudo. Entregar-se ao combate sem estratégia era o mesmo que deter a maré com as mãos. E ela sabia disto. Sabia que a fúria era uma ferida que se, tocada da maneira correta, apenas aumentava em tamanho e dor. Rindo dos seus atacantes, bradou aos ventos sua vitória. Não conhecia completamente o valkar, mas já ouvira o suficiente para se fazer entender. Perto do idioma dracônico, a língua dos homens era pobre e facilmente assimilada.
- Vejo que sentiram a perda de seus tolos companheiros, especialmente da fêmea. Qual de vocês se serviam de sua carne? Ou a pequena vadia divertia a todos com suas curvas?
- Você cometeu o último dos seus erros, maldita serva do mal – gritou Rhond, o ódio transbordando de seu corpo – Acredita mesmo que irei me contentar em simplesmente aprisiona-la? Vou transformar você em rocha, e a rocha em pó, e irei espalha-lo de tal forma pelo mundo que mesmo em mil vidas você não conseguirá retornar a esta terra.
- Suas bravatas não passam disso pequenino. Seus golpes apenas arranham minha pele. Crê mesmo que eles fazem alguma diferença para mim?
- A única coisa que lamento nisto tudo – a voz sob o elmo soava como se rasgasse a própria garganta – é que não terei mais seu sangue para abençoar minhas armas, rainha dos dragões. Mas enfim… Enfrentar você por todas estas eras já se tornou entediante.
Dizendo isto, e evocando a ira de Keenn lançou-se sobre Riona, unindo seus machados em um só, e largando as outras armas. Saltou sobre a base do longo pescoço negro da fera e enterrou profundamente a arma em sua carne, abrindo uma fenda de mais de quinze metros de comprimento em suas costas, jorrando sangue negro e venenoso que escorria como um rio pútrido que brotava de seu corpo. Preparou-se para um segundo golpe, que faria tombar a grande cabeça negra, mas foi atingido pela longa cauda da fera, parando a mais de trezentos metros de onde estava em um penhasco que desabou sobre o guerreiro. Não contente com isto, Riona pisou pesadamente sobre ele.
Assim que Rhond desapareceu sob a chuva de rochas e pó, Strahauss surgiu cavalgando Pesadelo. Suas mãos ardiam em chamas negras como a noite, e seus olhos desprovidos de íris e repletos de rancor clamavam por vingança. Poucas coisas faziam o pai dos vampiros mudar a expressão de seu rosto, sempre indiferente e distante. Mas não admitia a idéia de que Lenórien houvesse perecido. Desde que a viu pela primeira vez quis torna-la um dos seus, para que
dividisse com ele as noites eternas, e amenizasse um pouco o frio da solidão. Desejava seu sangue puro mais do que tudo. E agora ela estava morta. E seria vingada.
- Sinta na pele maldita rainha, o frio das Chamas de Tenebra, que queimam até a minha própria carne, sendo que sou seu mais poderoso servo. Recebi este dom dos lábios da Deusa, e você terá a honra de ser a primeira a sentir os estragos que elas causam em seus inimigos.
Das mãos do vampiro emanaram dois grandes dragões de fogo escurecidos pelo ódio. Eles serpentearam um em volta do outro até unirem-se em um único e poderoso golpe, que explodiu ao atingir Riona. A reverberação avançou pela cordilheira, e a atmosfera agitou-se, com grandes lufadas de vento que foram sentidas até o Deserto da Perdição, se não além.
Strahauss, com os braços marcados pelas queimaduras estava tonto devido ao grande esforço que o golpe exigia. Sobre o lombo de Pesadelo tentou afastar-se do ponto onde as chamas ainda queimavam. Estava a ponto de desmaiar quando do fogo emergiu a grande cabeça verde da fera, que abocanhou com ódio cavalo e cavaleiro, esmagando o animal com seus dentes. Em forma de sombra esgueirou-se por entre as presas de Riona, despencando de grande altura e caindo inconsciente aos pés de seu algoz.
Riona estava bastante ferida. O golpe de Strahauss se mostrou muito mais poderoso do que ela acreditava serem capazes de realizar, as queimaduras lhe ardiam e tornavam seus movimentos difíceis, sem contar que a cabeça negra estava já há algum tempo inerte. A sorte estava ao seu lado, pois, enlouquecido pela fúria, Rhond errou por alguns metros o ponto que romperia os ossos do monstro, e faria tombar em um único golpe seu crânio negro. Os cortes infeccionados causados por Illandil não eram em número inferior as flechas disparadas pela elfa, mas não chegavam a ser mortais. E haviam as feridas causadas pelos galhos e raízes do druida. Por sorte todos haviam sido consumidos pelas chamas. Preparava-se para finalmente esmagar sob seus pés o inconsciente servo das trevas quando foi atingido com força na face rubra, trazendo-a de volta a realidade. Em sua frente um golem tão alto quanto às montanhas a sua volta, construído de madeira e folhas avançava golpeando incessantemente. No coração do ser estava Galron.
- Crê que terminou seu serviço, mas esquece que um de nós ainda não desistiu maldita. Não haverá uma nova era dos monstros enquanto à vontade de Allihanna estiver ao meu lado.
A resposta de Riona veio na forma de golpes que abriam grandes sulcos nos troncos que formavam o golem. As baforadas de fogo e de gelo queimavam o destruíam quase tão rápido quanto ele se reconstruía. Depois de um confronto violento, o gigantesco homem-planta fora desmembrado em um único golpe, sendo que cada cabeça arrancara um de seus apoios. O tronco com mais de cinco quilômetros de altura despencou atingindo ruidosamente o solo, para então ser
queimado pela cabeça vermelha do monstro. Galron protegeu-se como pode, mas havia gastado energia demais durante a batalha, e criado muito mais golens do que jamais fizera antes. Quando receberia o golpe final, transformou-se em milhares de pequenas borboletas brancas, e escapou rápido voando em todas as direções.
Alguns segundos de total silêncio preencheram todo o ambiente. Riona havia vencido. Estava fraca e ferida, levaria anos para estar completamente curada e pronta, mas havia vencido. Vencera o desafio estipulado pelos deuses. E não cansava de gritar isto.
- Eu consegui malditos. Riona venceu. Ouçam bem membros do panteão, pois o flagelo do mundo retornou. Nada mais está entre mim e Arton. Cumpri o pacto que me foi exigido. Seus cinco guerreiros escolhidos pereceram sob minha força.
- Engana-se rainha dos monstros, pois um deles ainda persiste. – Sobre uma rocha, bem diante de seus olhos, estava Terrence, o guerreiro humano que quase convalescera de medo apenas por apreciar a magnitude da fera, erguia-se com a dignidade e a pompa de um paladino, apesar de ter ingressado na ordem como um simples clérigo a menos de três meses. Em suas mãos segurava firmemente o martelo que antes estava com Rhond – Ainda resta um de nós para enfrenta-la e
irei honrar minha deusa como disse que faria.
Riona gargalhou. Nunca ouvira ameaças de alguém tão insignificante. Riu tão alto e com tanta força que as pedras chegavam a tremer ao chão. Depois sua expressão mudou, e ela, em uma única bocada, engoliu Terrence por inteiro, juntamente com as pedras que lhe serviram de palco para tão tolo discurso. Voltou suas atenções novamente para o lugar onde deixou o servo das trevas, mas ele não estava mais lá. Preocupada com uma possível recuperação, procurou em volta e viu que Rhond também já não estava mais no lugar onde havia perecido. Foi quando sentiu seu ventre se abrir em chamas despejando no solo suas viceras, quase ao mesmo tempo em que sua cauda voltou a transformar-se em pedra.
Foi tomada pela loucura, tentando em vão escapar do frio petrificante que subia por suas costas, trancando-a no solo. As cabeças se debatiam nas rochas e entre si, até que apenas seus olhos ainda brilhavam de ódio. Sua visão se perdeu no horizonte, contemplando o deserto, e então se apagaram. Assim permanecerão pelo próximo século.
No solo Galron curava Rhond. Seu corpo tinha sido completamente esmagado, e seus ossos partidos em tantos pedaços que, se não fossem por meios mágicos, jamais poderiam ser restaurados… Ao seu lado Lenórien afagava os cabelos do ainda inconsciente Strahauss, que dormia em pesado sono.
- Precisamos leva-lo daqui – disse finalmente a elfa – falta pouco para que Azgher surja por trás das Sanguinárias, e isso sim seria o fim de nosso companheiro.
- O que … Por Keenn, achei que você tinha morrido sua…
- Eu também acreditei nisto Rhond, e, aliás, ela realmente teria perecido se não fosse por Terrence. Vamos sair daqui agora, e explicaremos tudo após deixar Strahauss em segurança. Não tenho poder para cura-lo, pois meu toque seria mortal para um morto vivo. Apenas a noite pode recuperar suas forças. Dito isto, Lenórien transportou todos até o castelo do conde, que fica em um
vale escuro próximo a fronteira sul com Deheon, nas Uivantes. Strahauss despertou logo após, ainda muito cançado, mas não menos curioso que os demais quanto o que tinha realmente acontecido. Coube a elfa elucidar em parte os mistérios da batalha.
- Terrence havia se recuperado, não sei como, do choque inicial de encontrar-se com Riona. Levantou de onde estava e veio correndo em minha direção, talvez para saber o que deveria fazer. Isto chamou a atenção da rainha dos dragões, que acabou por me localizar, e atacar daquela forma. No instante em que eu seria atingida, utilizei meu teleporte para levar Terrence e eu para um lugar seguro, em uma caverna a algumas centenas de metros dali. Estava dando instruções para que ele permanecesse em segurança enquanto nós atacávamos Riona quando ouvi um estrondo, e logo após toda a caverna veio abaixo. Este galo em minha cabeça deve ser o motivo para eu não recordar de mais nada a partir dali.
- Maldição. Achei que você tinha morrido. Fiquei louco e ataquei sem pensar, e fui derrotado facilmente por Riona. Tenho vergonha de mim mesmo quando recordo disto.
- Não se culpe desta forma Rhond. Se não fosse por você jamais teríamos conseguido. Lembre-se que foi uma de suas armas que acabaram com a rainha dos dragões. Permitam que eu agora elucide o que aconteceu, pois tudo já esta bastante claro em minha mente.
Galron ergueu-se da cadeira em que estava e caminhou em silencio pela sala. Então começou sua narrativa.
- A caverna ruiu porque foi atingida pelo corpo de Rhond, e depois por um golpe vigoroso de Riona. Após isso, Terrence, que escapou mais ou menos ileso levou algum tempo para encontrar uma saída, dado que não possui o dom de ver em meio às trevas. Quando saiu, encontrou caído a sua frente às armas que você guerreiro de Keenn havia abandonado em meio à fúria. Tomado pela ambição, que é comum a sua espécie tomou o martelo para si. Não posso afirmar por quanto tempo assistiu calado ao combate, ou por quanto tempo a duvida de envolver-se ou não o consumiu. Mas quando notou que eu também seria derrotado, surgiu atrás de uma pedra agitando o pequeno manto que levava as costas. Vi que ao seu lado estavam Lenórien e Strahauss. Estavam feridos e minha natureza me forçou a abandonar a frente de batalha para cura-los. Minha
cara elfa estava voltando a si quando notei que ele, o pequeno Terrence, havia sumido.
Acho que acreditou que era sua responsabilidade vencer a rainha dos dragões, não levando em consideração a sua já grande ajuda no combate, levando os feridos para longe dos olhos do monstro. Apostou que Riona o engoliria, o que realmente fez. Seu martelo, guerreiro, realmente produzia explosões impressionantes, mas bastante ineficazes sobre a pele da fera. Internamente, porém, o resultado fora outro. A explosão dentro do estomago rompeu seu ventre e a destruiu. Terrence, realmente um herói, forte entre os fortes. Foi um golpe do acaso devo dizer, creio que, mesmo que esta suposição não me agrade, Nimb também está ao nosso lado. Mas nunca mais esquecerei a coragem deste pequeno, que desta vez foi decisiva para o destino do mundo.
- Já era hora de um desses clérigos de Valkaria fazerem alguma coisa. Sempre morriam e morriam…
- Rhond, por favor. Devo minha vida a este pequenino, e gostaria de recompensá-lo de alguma forma. Mesmo que traze-lo de volta seja impossível, acho que precisamos de alguma forma lembra-lo. O que acha Strahauss?
- Para mim tanto faz, minha cara elfa. Mesmo tendo viajado tantos quilômetros para o oeste, novamente Azgher vem a meu encalço, e devo me recolher ao sono. A decisão de vocês tem minha total aprovação.Mas, antes de me retirar, não seria gentil de minha parte não fazer um convite. Lenórien, gostaria de me acompanhar?Meu leito é deveras aconchegante.
- Imagino que seja Strahauss. A própria Tenebra o aprecia. Mas não será hoje que terás minha companhia.
- Ora, foi o mais próximo de um sim que cheguei em todos estes séculos. Obrigado pela adorável companhia, senhores. Fiquem a vontade em meus aposentos.
- Descanse Strahauss. A sim, e quanto aquele golpe seu, a Chama de Tenebra, quando foi que aprendeu?
- Bom, há tempos que tenho a honra de sentir o fogo de minha deusa, e digo isso sem um pingo de modéstia. Digamos que uma coisa leva a outra. Novamente, desculpo-me por ter que partir, mas o maldito sol já ilumina o pico das Uivantes.
- Maldito seja você Strahauss, vá logo para seu caixão ou coisa que o valha, seu sujeito de sorte.
- Eu também devo partir cavalheiros. Vou novamente de encontro à deusa em Arbórea. Sinto falta de seus jardins infinitos e suas florestas verdejantes. Todo este conforto impede que eu me sinta à vontade. Adeus senhores, nos veremos novamente em um século. E Lenórien, boa sorte para seus elfos.
- Obrigado druida. Que Allihanna lhe receba bem.
- Mande lembranças minhas a sua deusa Galron. Creio que você deva ser o morto mais feliz de toda Arton, perdendo claro apenas para Strahauss. Aquele lugar cheio de mato e bichos deve ser o paraíso para você. Sinceramente eu enlouqueceria por lá.
- Obrigado Rhond. Vou considerar isto um elogio. Do solo brotaram vários ramos cobertos de flores, envolvendo completamente o druida. Depois retrocederam e ele desapareceu. Na sala ricamente decorada por fina tapeçaria e quadros dos maiores artistas que já viveram neste mundo, apenas Lenórien e Rhond ainda permaneciam. Após um breve silencio o gigante levantou-se
batendo com força a cabeça no teto baixo. Se sentiu alguma coisa porém, não deixou transparecer.
- Também me vou pequena elfa. Toda esta conversa me cansou. E como dificilmente encontrarei algum adversário por aqui vou voltar para minha cidade. Terei que trabalhar em uma nova armadura para mim, e tive algumas boas idéias para armas também. E por falar nisso, acabei deixando todas por lá. Bom, que quem as encontre faça bom proveito.
- Menos o martelo Rhond. Eu o recolhi. Acho que fui à única que levou a sério à homenagem para Terrence. Pensei em uma estátua segurando este martelo. O que me diz?
- Não gosto de estátuas. Mas faça o que achar melhor. Vou indo. È uma longa caminhada até minha cidade.
- Não quer que eu o leve até lá Rhond?
- Obrigado pequenina, mas não é necessário. Estou com saudade de esmurrar alguém pra variar, e talvez encontre peleja pelo caminho. Cuide-se bem.
- Você também amigo. Você também.
FIM
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Perdão pela demora em mandar o último capítulo meu primeiro Fiction de Tormenta. Eu escrevi esse bagulho em 2003, faz seis anos. Já tá em idade escolar hoahoa ;D