Almas Torturadas – Capítulo 03

O Primevo

Por Newton Rocha

Sati seguiu a criatura por algumas dezenas de metros, tentando acompanhar os movimentos ágeis do monstro. A criatura pulava entre as árvores com uma velocidade impressionante, e sempre voltava para se certificar de que a jovem guerreira o estava seguindo. À medida que entrava na floresta, Sati sentia um frio crescendo em seu estômago. Ela tinha certeza de que a aberração não a estava levando para um local agradável.

À medida que caminhava, Sati notava que a floresta ia mudando de forma. Anteriormente quase morta, com árvores secas e definhando e com muitas árvores mortas-vivas com suas cascas negras e folhas esbranquiçadas, a vegetação começava a aparecer de maneira selvagem e profusa. Ela via um crescimento exagerado da vegetação, com plantas de formatos estranhos e misteriosos compondo a paisagem, assim como flores gigantes que ficavam se movendo como se fossem animais. Era tudo muito estranho, ela nunca vira algo parecido. Quanto mais ela seguia o monstro, o cenário em torno, uma espécie de explosão descontrolada de vida, ia ficando cada vez mais caótico.

trecho_almas_torturadasSati começou a notar que no chão onde pisava, apareciam pequenos olhos grotescos à medida que passava. Aquilo a deixou aterrorizada pois devia haver alguma magia muito poderosa em ação por aqui. Mais uma vez as palavras dos Anciões do clã da Garra Negra lhe vinham à mente: “Magia, o dom de Tifereth para o nosso mundo, é algo muito perigoso. Apenas os Shamans de nossa tribo sabem lidar com ela. Se você entrar em contanto com ela, lembre-se desse conselho: fuja!”. Só que os Anciões não avisaram o que fazer quando se tem uma criatura de mais de trezentos quilos pronta para te matar se você fugir. Mordendo o lábio inferior, Sati prosseguiu, acompanhando a criatura e tentando não pisar nos olhos e nas eventuais bocas cheias de presas que surgiam espontaneamente no chão.

De repente, Sati escutou um rugido, seguido dos sons inegáveis de uma fera se alimentando. Sati procurou prosseguir, passando pelas plantas surreais que surgiam sob seus pés e se enroscavam em seu corpo como serpentes. Com certo esforço, Sati chegou até uma clareira, e o que viu fez o seu coração parar no seu peito.

Ali estava o foco da magia caótica que causara o crescimento selvagem da floresta ao seu redor. Uma enorme criatura com o aspecto de um verme translúcido e fosforescente estava devorando partes do corpo de um enorme homem caído. A criatura possuía uma cabeça horrenda e circular, com quatro tentáculos-membros se distribuindo na parte inferior de um disco de três metros de diâmetro, cheio de centenas de dentes dispostos em raios e ostentando, na parte superior, duas enormes presas colocadas entre dois olhos vermelhos e brilhantes. O seu corpo principal, de cerca de dez metros de comprimento, era meio-transparente. Sati podia ver a perna da vítima descendo pelo trato digestivo do verme. A criatura estava devorando a parte inferior do homem que, inacreditavelmente, estava consciente e tentava se arrastar para longe do monstro.

A vítima estava vestida de um modo que Sati jamais vira. Ele usava uma armadura de metal negra, que parecia estar cravada na superfície de sua pele pálida e cheia de cicatrizes, ou melhor, costuras. A pele pálida indicava a sua origem: era um Nor, um dos não-vivos!
primevo
O Nor estava usando um elmo estranho, de formato esférico com várias aberturas circulares e com três lâminas cravadas em cima, como uma coroa bélica. O elmo estava ligado a uma corrente que terminava cravada no torso do Não-Vivo e parecia estar preso no seu maxilar. O guerreiro tentava em vão socar a enorme cabeça do verme com suas mãos, mas o monstro parecia não sentir nada. Apesar da sua armadura, todas as vezes que o verme encostava em sua pele, um fogo branco-azulado surgia repentinamente do contato, e isso fazia com que o guerreiro gritasse.

Sati não sabia o que fazer. Ela olhou para a criatura que a guiara para esse lugar, provavelmente uma espécie de cão do guerreiro. A criatura olhava para ela ansiosa, como se esperasse que ela ajudasse o seu mestre. Depois de alguns segundos, impaciente, a criatura pulou em direção ao gigantesco verme. Uma barreira de energia azulada se ergueu, saindo de um círculo místico que brilhou em torno do verme e de sua vítima. A criatura que guiara Sati até o local bateu na barreira de energia e, com uma enorme explosão, foi jogada a mais de dez metros do local, caindo fumegante em meio a uma moita de plantas caóticas.

O guerreiro olhou em direção a Sati e gritou:

__Hei! Menina! ARGH! Vai me ajudar ou vai ficar olhando eu ser devorado por esse Primevo? AAAARGH! Eu não vou durar muito tempo, e (argh!) Vermes Kumarianos nunca se satisfazem com uma refeiçãozinha leve como eu! AAAAAAARRGGGGHH!

Sati olhava para os lados. O enorme verme parecia estar apenas interessado em sua presa. A jovem guerreira podia ver um círculo energético azulado de runas místicas que girava no chão em torno do verme e sua vítima. O guerreiro agonizante, como que adivinhando o seu pensamento, gritava, a voz abafada pelo capacete de metal negro:

__Não tenha medo (aaarrgh!), esse círculo mágico funciona apenas com mortos-vivos como eu e o meu Necrofagi. Esses (AAARRGGHH!) malditos vermes primevos o usam para se alimentar em paz, mesmo em meio à um campo de (argh!) batalha! Agora aja, menina, pois depois que ele me devorar, é a sua carne que ele vai querer! AARRGHH!!!!!

__O que eu faço?!?__gritou Sati.

O verme kumariano arrancou totalmente a perna esquerda do guerreiro, que gritou. O Necrofagi começou a se recuperar, e a sair cambaleante da moita onde tinha aterrisado. O guerreiro gritou:

__Minha espada (ARGH!), pegue a minha espada! Ela está (argh!) ali, perto daquela árvore!

Sati correu os olhos pelo lugar e viu, cravada no chão, uma admirável espada, quase do seu tamanho. A arma tinha uma lâmina larga e estranhos desenhos cravados na empunhadura. A espada era dentada em um dos lados de sua enorme lâmina, enquanto o outro lado parecia extremamente afiado. Ao longo da lâmina, ela podia ver runas levemente cravadas em baixo relevo. Sati correu para a espada. Porém, no momento em que a segurou, não conseguiu tirá-la do chão. A espada era muito pesada para ela.

__AAAAAAAAAAAARGGHHHHHHH!

Os gritos do guerreiro aumentavam. Sati olhava para o verme com aflição e depois para a gigantesca espada. Ela tentava puxá-la com todas as suas forças, mas a lâmina não saía do lugar, não se movia. O guerreiro iria morrer e seria sua culpa. Ela sabia que ele era um Não-Vivo, um dos que tinham expulsado sua tribo para o Submundo, para baixo da superfície, mas ela tinha que fazer algo.

Sati fechou os olhos com força, e se lembrou dos ensinamentos dos anciões sobre a Fúria, a principal arma dos Guerreiros do Clã da Garra Negra. Eles diziam que a Fúria tinha sido um presente do deus Kether para o clã, uma marca que o sagrado sefira deixou nos seus filhos mais selvagens. A Fúria era o eco da raiva dos deuses, o eco do desejo de vingança dos deuses assassinados.

A jovem guerreira sentiu a energia da Fúria dentro de sua alma, como uma bola de fogo de pura raiva. Usando os gritos de dor do guerreiro, que enchiam os seus ouvidos, ela deixou a raiva subir até a superfície de sua consciência, deixando-a explodir em sua mente e infundir o seu corpo com uma energia sobrenatural.

Sati abriu os olhos, agora brilhando com a energia rubra da Fúria e agarrou a gigantesca espada. Porém, o Verme Kumariano sentira a mudança na jovem guerreira e interrompendo o seu banquete, soltou um urro ensurdecedor e atacou Sati, modificando o seu corpo rapidamente para cobrir a distância que o separava da jovem guerreira.

Ela estava de costas para o ataque do verme gigantesco. Porém, a Fúria a fazia sentir a aproximação do monstro. Com um grito de guerra, a pequena guerreira tirou a enorme espada do chão e a levantou para trás de sua cabeça, empalando o verme no momento em que este ia dar o bote. O verme urrou e retrocedeu, com os tentáculos em torno do enorme disco de carne e dentes que era a sua boca, tentando arrancar a espada cravada em seu torso. Sati, ainda sob o efeito da Fúria, girou o corpo e ficou de frente para o verme, agarrando a colossal espada e puxando-a para cima, procurando cortar o monstro em dois pedaços.

A criatura urrava de dor. Desistindo de tentar tirar a espada de seu torso, começou a atacar Sati com os seus tentáculos. Cada um deles possuía uma espécie de boca dentada em suas extremidades, e cada vez que atacavam Sati, eles mordiam, uma mordida ardente e extremamente dolorida. Sati, ainda imersa na Fúria, não notava os ataques e continuava tentando puxar a espada para cima. Porém, uma dormência foi tomando conta de seus membros, e ela foi sentindo o seu corpo se paralisando lentamente.

A Fúria foi esvaindo do seu corpo à medida que o veneno do verme kumariano ia fazendo efeito. Ela estava consciente, e quase conseguiu evitar o grito quando a criatura levantou-a com seus tentáculos, para devorá-la inteira, de uma só vez.

“Então é assim que eu vou morrer…”, pensou a jovem guerreira.

(Continua)

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Mephisto é um demônio destruidor de mundos que vaga de universo em universo dizimando populações. Quando não está em batalha com alguma divindade qualquer, passa suas horas organizando textos em blogs.