(Des)criando Cenários

Mundos (não) Fazem Sentido

Se há uma coisa que geralmente não passa pela sua cabeça ao criar uma aventura é de onde diabos todos aqueles monstros legais com estatísticas loucas e poderes doidos surgiram. Tampouco paramos para pensar antes de degolar aquela montanha verde de musculos que atende pelo nome de hobgoblin. É difícil para o jogador mediano imaginar, por exemplo, uma mamãe goblin alimentando seu filhote com leite de peito, nanando a criaturinha verde com presas antes dela pegar no sono, rosnando para ela dormir…

Bizarro não é? Mas mundos de fantasia medieval geralmente são muito mais bizarros do que instinto materno orc ou goblins recém nascidos engatinhando de fraldas! Em sua maioria, os mundos de RPG estão fortemenbe baseados nas lendas antigas que maturaram ao longo dos séculos na criativa e temerosa mente humana. E com a infinita capacidade de contar um conto e aumentar um ponto, ossos de dinossauros acabaram se transformando em dragões cuspidores de fogo (como se um lagarto de treze metros já não fosse assustador o suficiente…).

Aproveitando o que doravante chamaremos de As Seis Grandes Questões Fundamentais dos Mundos que (Não) Fazem Sentido escritas por um dos maiores defensores da coerência em cenários de fantasia que conheço, o Remo do dot20, vamos conversar sobre elas, falando brevemente da minha pouco válida opinião e tentar, com elas chegar a alguns vícios que normalmente encontramos em cenários e buscar opções para estes casos em específico.

Quem sabe no fim das contas tudo não fique pelo menos um pouco mais claro?

  • Você se sente incomodado com o fato de toda mulher em ilustração de fantasia usar bojo de tamanho grande?

Eu particularmente não me sinto, e já falei sobre o assunto longamente aqui mesmo no Inominattus. Como comentei outrora, as ilustrações trazem exemplos de heróis aventureiros em ação, geralmente, e não ficaria bem um personagem icônico do mundo de jogo ter pneuzinhos aqui e ali. Ainda mais se levarmos em consideração o preço de uma ilustração e o quanto elas são difíceis de conseguir. Mas, todavia, contudo, isso vale para outros exemplos. Até que ponto a aparência de seus NPCs e Jogadores é levada em consideração na hora de criar seus personagens?

Em Meliny, por exemplo, o Deus dos Mares é rechonchudo, com uma pança digna de um Rei Momo que indica um pouco de sua índole e do ambiente em que vive: pacato, bem servido, com fartura de alimento. E um dos mais conhecidos heróis – um paladino caído chamado Fausto – não apenas tem sua barriguinha de chopp como também é calvo, com uma reluzente careca subindo-lhe a testa até o topo do crânio. Uma aparência sábia, de um homem já vivido.

Por isso, não tenha medo de ousar na imagem daquele NPC. Ele não precisa parecer um galã de cinema para ser levado a sério por seus personagens, e certos defeitos acabam tornando-o ainda mais verrosímil. Um tique nervoso, por exemplo, magnificamente interpretado por meu mestre de jogo no EIRPG do ano passado acabou fazendo-nos gravar rapidamente o nome de uma garçonete de uma taverna isolada do cenário. Muito mais do que os seus peitos que sobravam sobre o decote.

  • Raças não-humanas, não-mamíferas, com seios fazem berrar seu alarme de “não faz sentido”?

Os peitos nas draconatos fêmeas são motivo de dúvida e questionamentos em vários lugares da internet. Isso acontece e muito, por motivos que também já foram explanados. Resumidamente, é algo estético para facilitar a identificação nas ilustrações assim que qualquer leigo coloque os olhos em cima delas: fêmeas são magras e tem peitos. Machos são musculosos e não tem. Ponto. Veja, por exemplo, as raças jogáveis de WoW. Até as trolls tem peitos. Sem falar nas minovacas.

Mas – em se tratando dos mundos de fantasia – será que isso ocorre apenas pelo fanservice? Podemos explicar a fatura de peitos pelo método que também se aplica a raça humana. Homens gostam de seios e procuram fêmeas mais frontalmente favorecidas. Essa seleção natural ao longo das gerações acabou favorecendo os seios volumosos pelos quais muitos de nós suspiramos. Mas, a pergunta que não quer calar – todas as raças de seu mundo de jogo optaram pela mesma preferência?

Para lhe ajudar a responder as perguntas indignadas de seus jogadores quando você descrever a sua nova e  incrível raça de Mulheres-Graveto-Peitudas, seguem-se Três Explicações Desesperadas para Raças Fantásticas terem Peitos:

  1. Reserva de Gordura: assim como os camelos e dromedários carregam reservas de energia em forma de gordura em suas costas, as fêmeas de sua espécie fantástica possuem duas bolsas de gordura na parte frontal do corpo. Elas não produzem leite, mas garantem o sustento da fêmea durante o perído de recuperação pós-parto em que ela não pode caçar.
  2. Bolsa de Ovos: essa é excepcionalmente cruel. As fêmeas de sua espécie fantástica guardam seus ovos em duas belas e convidativas bolsas em uma posição estratégicamente protegida entre seus braços.
  3. Glândulas de Veneno: Sua raça fantástica espirra veneno nas vítimas através de duas belas bolsas dependuradas em seus peitos. Nesta raça, apenas as fêmeas são caçadoras (assim como acontece com os leões) enquanto os machos folgados são alimentados por elas.
  • E insetos gigantes? E répteis que cospem fogo?

O primeiro problema é com os insetos. Um dos detalhes quanto a eles é que os coitados não possuem esqueleto interno para sustentar seu peso. O exoesqueleto que serve de proteção para seus líquidos e flúidos também tem a função de manter o bichinho de pé. Se por um lado isso lhes dá uma força física incomparável, também os torna invariavelmente pequetuchos.

Então como conseguir uma barata ou formiga de oito metros? Idem para aracnídeos e outros bichos bunitinhos e adoravelmente asquerosos? A solução mais simples seria a de apenas colocar ossos onde eles não existem, mas isso não funciona na prática. Não há ossatura que aguente um abdômem com três dois metros de raio, pelo menos não numa criatura massiva. Uma solução – especialmente em insetos que tem asas – seria a de criar “sacos aéreos” iguais aos dos pássaros. Bolsas de ar dentro do corpo, deixando-os mais leves.

Uma outra solução seria a de considerar que eles seriam feitos de uma matéria inexistente ou desconhecida em nossa realidade. É uma desculpa mais forçada, mas não totalmente desprovida de mérito. Insetos (e nós também) são seres com corpos com base em carbono. Isso resumidamente quer dizer que os compostos de nosso corpo possuem uma molécula de carbono ligada a vários outros elementos. Em geral, 50% da massa de uma célula é formado por carbono, que é um elemento pesado. Reduzindo essa porcentagem e substituindo-a por uma quantidade maior de, digamos, hidrogênio, teriamos uma criatura relativamente mais leve (e com uma forte tendência à entrar em colapso e implodir numa reação química heoeho) =D

E a baforada do dragão? A química também é capaz de explicar isso de certa forma nem tão fantástica. Há uma série de gases inflamáveis, mas que são raros e geralmente estão bastante diluidos entre os outros gases mais comuns (como o hidrogênio e o oxigênio). Mas eles existem. Criaturas como dragões e outros cuspidores de fogo podem possuir órgãos ou pulmões especializados em filtrar este tipo de ar também, não se incomodando apenas com o oxigênio. Aliás, dragões vivem em regiões propícias aos seus próprios sopros, como crateras de vulcões e pântanos.

  • Magia cuja explicação faz tanto sentido quanto um horóscopo?

A magia é um caso complicado de ser explicado, pois por extenção, qualquer coisa que esteja além de nossa compreensão é mágica. Mesmo nossa atual tecnologia, aos olhos de um homem do século XIX seria considerada mágica. Apertar um botão e uma bola de vidro no teto soltar luz? Mágica, sem dúvida! Bem, é a melhor coisa que posso fazer em favor da magia. Transformá-la em uma arte científica que não pode ser compreendida por mera observação de um leigo.

Há alguns filmes que mostram exatamente este enfoque. O Ilusionista e o Grande Truque tratam cada qual à sua maneira da história de magos modernos que faziam uso de engenhocas como a Máquina de Tesla para impressionar o público. O uso de química e de efeitos “alquímicos” também se torna possível. Seu mago pode, por exemplo, dominar o uso da pólvora, um pó escuro capaz de explodir uma rocha. Mágica certa para impressionar povos bárbaros.

Note que este enfoque tira exatamente o gosto divertido da mágica que é a incompreensão do efeito per se. Você pode desenvolver uma luva de amianto recoberta de fósforo para que suas mãos queimem ao toque. Mas o efeito das chamas místicas brotando através da vontade do bruxo dão lá seu toque à uma descrição ou crônica.

  • E castelos com imponentes muralhas, quando se sabe que metade das magias presentes no módulo básico fazem a coisa tão eficaz quanto uma mureta de argila?

Existe uma máxima que prega que Para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário. Isso é mais do que um conceito, é uma lei física que rege tudo no que chamamos de realidade. Por exemplo, para colocar um veículo em movimento você precisa gerar gerar mais força para adiante com o motor do que o atrito gerado pela gravidade e pelo solo. É a colisão destas forças que faz seu fusca sair da garagem.

E é mais ou menos esta lei que rege um fenômeno divertido que acontece quando duas forças bélicas contrárias são postas uma de frente para a outra. É o que ficou conhecido como a Corrida Armamentista. Em miúdos: se eu crio uma nova arma, você desenvolve um novo escudo. Eu trabalho para aperfeiçoar o projeto para que ele ultrapasse seu escudo, você vai lá e melhora ainda mais o danado. Para se ter uma idéia do poder desta lei, durante a Segunda Grande Guerra a tecnologia humana desenvolveu-se em tal velocidade que em cinco anos ela alcançou um patamar que em tempos de paz levaria cinquenta anos para conquistar.

Onde quero chegar? Basicamente, em um mundo em que existem Bolas de Fogo necessariamente vai existir uma magia de proteção contra Bolas de Fogo. Se suas muralhas são vulneráveis a uma magia de Terremoto, contrate um mago que lhes torne imunes a este feitiço (ou contra qualquer outro… uma fortaleza num mundo mágico ficaria muito bem em uma área anti-magia).

Há também que se considerar que magos com poder suficiente para demolir um castelo são raros mesmo nos mundos mais mágicos. Use como exemplo de comparação a quantidade de físicos que vivem neste mundo. Apesar de existirem em certa quantidade (oi, Professor de Física de Segundo Grau), eles não são exatamente perigosos por conhecerem a teoria. Os que realmente colidem partículas são raríssimos. Eisteins então; nem se fala.

  • Gente que luta feito um coelho da Duracel, só tombando quando vai morrer, visto que, até cair, sucessivos ferimentos parecem não causar incômodo algum?

Apesar disto ser algo inerente ao sistema (pois ficar chorando de dor na mesa de jogo é triste), foi exatamente esta questão que me fez escrever este post. Há sim casos relativamente famosos de pessoas que tinham muitos pontos de vida. Situações em que, apesar da medicina considerar um absurdo, de pessoas que sofreram quedas de vários andares e sobreviveram (já soube de um sujeito que caiu de 16 andares e sobreviveu) ou levaram tiros no crânio e viveram para contar a história.

Exemplo? Um sujeito envolveu-se numa briga de bar e foi presenteado com uma faca de açougue enterrada no meio do crânio. A lâmina entrou completamente na cabeça do infeliz ficando alojada cirurgicamente entre as duas extremidades do cérebro. O sujeito sozinho pegou um ônibus e foi até o hospital consciente, pedir para que tirassem a peixeira dele.

Existem muitos outros relatos de pessoas que fizeram coisas que são consideradas humanamente impossíveis em combate. Só pra citar alguns, Simo Hayha

sozinho matou mais de 700 pessoas, sobreviveu a neve e a atentados a bomba e só parou de matar quando levou um tiro na cara. E não, ele não morreu com o tiro.  Yogendra Singh Yadav subiu  uma montanha de dois mil e quinhentos metros sendo alvejado três vezes na subida e levando outros doze tiros enquanto lutava. Ele metralhou e jogou granadas em vários inimigos, tomou um bunker e depois fugiu por um riacho, nadando mais de quinhentos metros.

Mas estes caras não são normais – vocês dirão. Bem, eles eram heróis, direi eu. O tipo de pessoa que se mete numa dungeon infestada de criaturas bizarras e sai vivo pra contar a história. Eles são os personagens de seu jogo, Os caras.

Então, das duas uma: ou os mundos de fantasia fantástica são no mínimo coerentes, uo é o nosso mundo que é muito, mas muito doido =D

Armageddon
Com agradecimentos ao Remo pelos questionamentos.

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About the Author

Mephisto é um demônio destruidor de mundos que vaga de universo em universo dizimando populações. Quando não está em batalha com alguma divindade qualquer, passa suas horas organizando textos em blogs.